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Eva Maria Bona Beckmann relembra sua trajetória de vida na tranquilidade do Bethesda

Com 85 anos, ela ainda se dedica à tricotagem, com destaque para os forros de cabide

R. Szabunia, especial para o ND
Joinville
23/10/2016 às 21H58

O título para este Perfil poderia ser Ouvindo a grama crescer. Pode ser pela paz reinante no aconchego do Ancionato Bethesda, onde o silêncio só é quebrado pelos carros que passam na rua Conselheiro Pedreira (poucos, convenhamos). Mas “ouvir a grama crescer” é a melhor tradução para a excelente audição de dona Eva. E olhe que falamos de uma senhora de 85 anos de idade! “Tive um problema de visão que se acentuou pelos 15 anos, e hoje meu olho esquerdo mal distingue alguns vultos. Acho que isso foi compensado com uma audição melhor”, arrisca uma explicação, enquanto no colo repousam agulha e lã, na meticulosa e agradável tarefa – a cargo do olho direito – de produzir mais um forro para cabide. “Faz uns quarenta anos que tricoto forros, já sai meio automático”, reforça, com o inconfundível sotaque alemão do idioma em que foi criada. Mas poderia ser italiano ou inglês...

“Rende um dinheirinho pra caipirinha e as cervejas”, diz Eva sobre os forros de cabide que tricota - Fabrício Porto/ND
“Rende um dinheirinho pra caipirinha e as cervejas”, diz Eva sobre os forros de cabide que tricota - Fabrício Porto/ND

De fato, a ascendência de Eva Maria é um mix europeu: “Meu avô paterno era austríaco e minha avó, italiana de Veneza. Por parte de mãe, o avô era irlandês e a avó, alemã. Aliás, essa avó, lá na Alemanha, era vizinha de um senhor chamado Hermann Otto; o mesmo que, em 1850, fundou uma vila que hoje é o município de Blumenau”. E foi com o italiano sobrenome Bona herdado da nona que nasceu a penúltima dos oito filhos de uma família de Rodeio, em 1931. “Minha nona teve dezoito filhos! Prole de italiano sempre é grande”, comenta Eva, acrescentando que é a última sobrevivente dos oito irmãos. Os olhos brilham marejados de emoção quando ela se lembra de um irmão que morreu, com apenas 39 anos, durante uma viagem de negócios à Checoslováquia (atual República Checa).

Ainda que tenha nascido em Rodeio, Eva Maria criou-se em Blumenau, para onde a família se mudara devido ao trabalho do pai, coletor da Receita Estadual. “Estudei no colégio Divina Providência, das freiras, mas nem cheguei a terminar o ginásio. O caminho natural para as moças, que seria o curso Normal, nem comecei”, explica, atribuindo ao problema de visão a dificuldade em prosseguir nos estudos.

Mesmo assim, Eva fez um curso de puericultura na Maternidade Esther Köhler, pois se via com a vocação para cuidar de crianças. Só que o preparo, em vez de proporcionar emprego, a ajudou a criar os próprios filhos.

 Primeiro casamento na Catedral

 Corria o ano de 1955, e a Cia. Hering comemorava seus 75 anos de fundação. Da programação de aniversário fazia parte um concerto do coral do Teatro Carlos Gomes. No coro, entre as cantoras, Eva Maria Bona; na plateia, Egon Beckmann, representante da Hering em Joinville. Até aí, nada demais.

No dia seguinte, uma segunda-feira, desabou uma chuvarada. Eva conta: “Minha família era da Itoupava Seca, mas eu morava na cidade, por causa do curso. Ia a pé da pensão até a maternidade. Mas naquele dia choveu muito, e acabei não indo. Fui almoçar na Hering, com o pessoal do coral, e lá conheci o Egon. Ele me convidou para tomar café alguns dias depois, e quando nos encontramos ele já me mostrou as alianças!”

Iniciado o namoro à distância, vinha o esforço de convencimento familiar: onde seria o casamento? Na igreja católica (dos Bona) ou na luterana (dos Beckmann)? “Casamo-nos no dia 10 de novembro de 1956, em Blumenau, na igreja católica. Foi o primeiro casamento na nova catedral, oficiado pelo frei Brás Reuter. A festa foi no salão do Ipiranga, e alguns parentes do Egon ainda me olhavam de esguelha, pois não se conformavam em não fazer o casamento na igreja luterana. Naquele tempo ainda não se falava em ecumenismo como hoje.”

A nova família ocupou o casarão dos Beckmann, na esquina das ruas Jerônimo Coelho e Rio Branco, no Centro de Joinville. E veio a lua de mel. “Egon não me contou nada, era surpresa. Deixei-me levar. Embarcamos numa camionete rumo a Curitiba. No caminho furou o pneu três vezes. Na terceira estávamos na altura da represa da Voçoroca, e pegamos carona com uns pescadores. Egon pediu que eles nos deixassem no aeroporto. Aí que ele me contou: a lua de mel seria em Foz do Iguaçu. Ao chegarmos à escada do avião da Cia. Real, reconheci o piloto, Joãozinho, um amigo de Blumenau. ‘Evinha! Vai pra Foz?’. Foi uma viagem muito agradável. No hotel fizemos amizade com um casal de turistas gaúchos, que chegaram a batizar nossa filha.” Anos mais tarde, numa chuvosa tarde de setembro de 1981, o amigo piloto Joãozinho estava entre as vítimas do avião que caíra em Seara, acidente em que morreu o então secretário de Indústria e Comércio Hans Dieter Schmidt.

Egon teve sua história contada em novembro do ano passado, em reportagem sobre o Hotel Beckmann, de seu avô. Ele e Eva Maria tiveram os filhos Sabine, hoje com 59 anos, mãe de dois filhos; Charlotte, 57, uma filha; e Nicolau, o Nicky, 55, também pai de uma filha. Todos devidamente encaminhados na vida, como detalha Eva: “A mais velha casou-se com um alemão e mora na Alemanha; os outros dois moram na Suíça”. Avessa à tecnologia da informação, Eva prefere se comunicar com os filhos por telefone. Coincidentemente, durante a entrevista o telefone tocou: era Sabine, dando um oi pra mãe; Nicky é aguardado em novembro, para passar uma temporada em Joinville.

As alianças inesperadas e a lua de mel surpresa não foram as únicas decisões súbitas de Egon Beckmann. “Há uns cinco anos – conta Eva – ele me trouxe até o Bethesda, pois já conversávamos sobre vir morar aqui. Quando chegamos, ele mostrou o apartamento que já era nosso. Tomei um susto, mas o jeito foi começar a pensar na mudança e no que daria pra trazer.” Mudaram-se em outubro de 2011, para um apartamento no piso superior. “Parecia que ele já previa algo, pois um ano depois faleceu”, emociona-se Eva.

Ela ficou, fez amizades e continua tricotando os forros de cabides. “Já fiz 185 dúzias”, contabiliza, enquanto empilha alguns de uma encomenda. “Rende um dinheirinho pra caipirinha e as cervejas”, acrescenta. Como a corroborar a informação, uma amiga surge à porta anunciando que a ida ao supermercado, programada para aquela terça-feira, fora adiada para o dia seguinte. Mas logo depois elas iriam até o restaurante do Moacir, ali no Centro de Pìrabeiraba, para a tal caipirinha e o almoço. Uma dolorosa artrose impede que Eva Maria faça caminhadas muito longas.

Assim, forrando cabides, tomando uma cervejinha e curtindo as lembranças, Eva Maria Bona Beckmann vive em paz consigo e com quem a cerca, ouvindo a grama crescer lá fora.

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