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Diferente dos brasileiros, estrangeiros contam como é a ceia de Natal em seus países

Um alemão, um português, uma grega e um libanês, moradores de Florianópolis, explicam como tentam manter as tradições

Karin Barros
Florianópolis
23/12/2017 às 13H59

No Brasil, a tradição da ceia de Natal inclui uma mesa farta de boa comida, normalmente uma ave assada, depois alguns doces de sobremesa. Na realidade, a preparação para a data que acaba sendo o mais demorado, que demanda mais cuidados e preocupação, enquanto a magia fica guardada para a noite quando, segundo a religião cristã, o Menino Jesus nasceu.

>> Confira as receitas e a galeria de fotos dos pratos no final da matéria

As famílias que têm crianças buscam trazer a imagem do bom velhinho, fazer a troca de presentes, cantar cantigas natalinas e falar sobre a chegada do Papai Noel. Mas será que em outros países a tradição se assemelha a nossa? E as comidas, são parecidas com as do Brasil?

A revista Plural buscou ao longo do mês de dezembro entrevistar quatro pessoas de nacionalidades diferentes, mas que chamam Florianópolis como casa. Encontramos um português, um alemão, uma neta de gregos e um libanês que prepararam pratos típicos de suas ceias. Todos com residência fixa na cidade, mas que buscam levar à mesa na noite de Natal pitadas do lugar onde nasceram e guardarão para sempre no coração.

Português família

Fabio Costa, empresário e nutricionista, nasceu em Póvoa do Varzim, em Portugal. Ele veio para a Capital para ficar seis meses, mas isso já faz sete anos. Fabio formou família, abriu uma empresa de comidas portuguesa com sócios, a Portugaria, e seu Natal continua tendo pitadas lusitanas.

Fabio Costa mostra o bacalhau , carro-chefe das ceias portuguesas, e o Docinho do Céu, à base de caramelo e amêndoas - Marco Santiago/ND
Fabio Costa mostra o bacalhau , carro-chefe das ceias portuguesas, e o Docinho do Céu, à base de caramelo e amêndoas - Marco Santiago/ND


Na sua terra, Fabio afirma que tudo é pretexto para juntar a família, mas que o Natal em especial é um momento em que as famílias se unem desde a preparação da comida na cozinha, com as crianças untando formas e ajudando a montar a mesa. Em Portugal, o Papai Noel é chamado de Pai Natal, e há uma grande ansiedade pela meia-noite. Depois das tradições cumpridas, Fabio diz que a festa não tem hora para acabar se a mesa estiver bem farta como de costume.

Como é de se imaginar, o prato que não pode faltar na ceia portuguesa é o bacalhau. “Antigamente era uma comida de pobre e hoje é de rico, porque cada vez ele está mais escasso, e conseguir um bom é mais difícil. Lembro de que quando eu era pequeno, bacalhau não era algo que agradava os mais novos, e começamos a fazer com natas. Continua algo simples, mas usamos as melhores postas”, afirma. O prato a que Fabio se refere é feito com batatas, creme de leite, muito azeite, temperos, e gratinado no forno. O bacalhau começa a ser dessalgado três dias antes do Natal.

Outro prato que está na ceia na hora da sobremesa é o Docinho do Céu, que tanto no Brasil como em Portugal, tem diversas variações, mas a matéria-prima é a mesma, com base de caramelo e amêndoas.

Guloseimas alemãs

Há 13 anos morando no Brasil está o alemão natural de Ziegen, Heiko Grabolle, 40. Chefe de cozinha, analista e consultor gastronômico do Senac, ele diz que na Alemanha a simbologia do Natal é a mesma, e muitas tradições também. Sua mãe utiliza árvore de verdade dentro de casa com velas também de verdade penduradas. Para ele, na terra natal, as luzes fazem muito mais sentido. “A ideia é a mesma que aqui, mas pelo clima ser de inverno, o tempo lá escurece perto das 17h, então as luzes ganham muito mais destaque, e são espalhadas pela casa inteira”, diz.

O chef Heiko Grabolle destaca o Stollen, tipo um panetone, que lembra o Menino Jesus envolto em uma manta - Flavio Tin/ND
O chef Heiko Grabolle destaca o Stollen, tipo um panetone, que lembra o Menino Jesus envolto em uma manta - Flavio Tin/ND


A cada cinco anos o chefe retorna ao país, e explica que apesar dos alemães serem muito conservadores, a educação mudou bastante. Para o Natal, na ceia, Heiko lembra de ter muitas guloseimas e doces durante dias na mesa, e na grande noite são feitos pratos especiais, como pato, fondue e lombo de porco assado. Ao final dos cozimentos, é tradição em sua família todos ajudarem na arrumação, para só então sentarem à mesa.

Um pão doce também é muito famoso no país desde 1329, o chamado Stollen. Ele lembra o panetone, por ter frutas cristalizadas, mas o sabor é diferenciado. A receita inclui farinha, fermento, manteiga, açúcar, sal e limão, mas Heiko explica que poucos locais no Brasil conseguem fazê-lo, pois cristaliza com muita facilidade e sua durabilidade é menor. Seu formato também é bem característico e simbólico, visto que a ideia é de lembrar Menino Jesus envolto em uma manta.

Grécia festiva 

Maria Kotzias Atherino Neves, 67, é natural de Florianópolis, mas seus avós Parasqevi Kotzias Atherino e Iconomus Atherino nasceram na Ilha de Kastellorizo, na Grécia, lugar que ela já teve oportunidade de visitar três vezes. Por isso, toda a criação de Maria foi baseada nos costumes gregos.

Maria Kotzias Atherino Neves: nas ceias da família tem arroz paraghémisi, pernil ovelha e o biscoito kurambiedes - Flavio Tin/ND
Maria Kotzias Atherino Neves: nas ceias da família tem arroz paraghémisi, pernil ovelha e o biscoito kurambiedes - Flavio Tin/ND


Das noites de Natal, ela se lembra de sempre ir à missa à noite, e depois ir para a casa de algum familiar onde era servido uma mesa com pratos típicos. No dia do Natal não havia distribuição de presentes entre os mais antigos, apenas no dia 2 de janeiro. “Lembro de meu avô me colocar no colo e me dar o que eles chamam de ‘polistrina’, que era um pouco de dinheiro”, explica Maria, sobre a data que marca o dia de São Basílio, já que por lá não havia a figura do Papai Noel.

Atualmente, a ceia da família Atherino Neves é mista, com pratos da tradição brasileira e da grega, como o pernil de ovelha e o arroz paraghémisi. Este último é usado como arroz para recheio na Grécia, mas as famílias locais não comem dessa maneira. Ele é um arroz escuro, por ser cozido em cebolas queimadas na manteiga com moela de frango, noz mocada, cravo, nozes e uva passa para finalizar. De parecido com o arroz à grega que se conhece, apenas as uvas passas mesmo.

Um biscoito fino amanteigado, chamado de kurambiedes também é tradição no Natal grego. Feito apenas com farinha, açúcar e manteiga, o segredo dele é o ponto, por isso, Maria Cristina Atherino Neves, nora de Maria, é uma das fabricantes artesanais mais procuradas em Florianópolis nessa época pela comunidade grega.

Coração libanês

Ela é síria e ele libanês, sorte deles que as culturas são muito próximas, logo, a gastronomia também. Angela e Elias Boabaid moram no Campeche, em Florianópolis. Elias chegou à cidade há 17 anos e tem um restaurante especializado em comida libanesa. Desde que chegou ao Brasil, nunca mais foi a Zahlé passar a data com a família.

Elias Boabaid mostra o frike, trigo verde com carne de cordeiro. Acima, o babaganoush, o kibe e os frutos secos  - Flavio Tin/ND
Elias Boabaid mostra o frike, trigo verde com carne de cordeiro. Acima, o babaganoush, o kibe e os frutos secos - Flavio Tin/ND


Porém, ele lembra que o que mais interessava para eles no Natal era a reunião familiar e não a comida. A ceia oficial ocorre no dia 25, mas no dia 24 começam as preparações e o momento de reflexão com a missa do galo. No Líbano, muitas pessoas fazem jejum da quaresma de Natal, e assim a ceia se torna ainda mais aguardada.  “O Natal é um orgulho cristão, e o cristianismo saiu de lá. Celebramos e decoramos muito”, diz, o também dono do restaurante Príncipe do Líbano.

Um dos pratos principais que ele destaca é o frike. A aparência é de arroz, mas ele é feito com trigo recolhido verde e defumado com carne de cordeiro, sementes de romã, pistache e amêndoas para decorar. Uma calda de coalhada fresca também é colocada à mesa porque o gosto da carne é forte. Alguns lugares fazem ainda o peru ou salsicha libanesa. As pastas de hommos e o babaganoush, que já são tradicionais no dia a dia do árabe, também não podem faltar na ceia. Ao fazer a refeição natalina no Brasil, ele busca misturar as duas gastronomias.


Confira algumas receitas

KURAMBIEDES 

INGREDIENTES:

02 pacotes de manteiga de  250 gramas cada, derretida e morna;

04 colheres (das de sopa) de açúcar refinado e ½  frasco de açúcar de baunilha;

01 kg de farinha de trigo (sobra uns 3 dedos de farinha);  

MODO DE FAZER:

Bater a manteiga derretida durante 15 minutos e adicionar o açúcar refinado e o de baunilha, batendo mais um pouco;

Colocar a manteiga  batida numa bacia, juntar o trigo aos poucos e amassar bem até dar a consistência para fazer os biscoitos.   

Fazer os biscoitos em forma de S ou em outro formato, como preferir  e colocar em forma para assar no forno.

Depois de frios,  passar os biscoitos no açúcar refinado  e guardar em lata ou vidro bem fechados.

PARAGHÉMISI

INGREDIENTES:
Lavar 05 xícaras de arroz parabolizado e reservar.
Picar no processador, 04 cebolas de cabeças, grandes e reservar.
Cozinhar 1kg de moelas de frango na água sem o sal e depois picar bem; reservar as moelas picadinhas.
300 gramas de manteiga;
300 gramas de nozes picadas;
Cravos da Índia;
Canela em pau;
200 gramas de uvas passas escuras;
Sal e pimenta à gosto;

MODO DE FAZER:

Colocar a cebola numa panela com 300 gramas de manteiga mexendo com a colher de pau até ficar bem escuro o refogado, sem se preocupar com o queimado. Fica bem queimado, preto, mesmo!
Quando estiver bem queimado, colocar o arroz reservado, ½ xícara de azeite de oliva e mexer, misturando tudo em fogo fraco.
Ainda com o fogo ligado, adicionar as moelas de frango picadas bem miúdo, as nozes picadas (300 gramas), a nós moscada ralada (01) e os cravos da Índia socados (20) , o sal e a pimenta à gosto, misturando tudo.
Colocar 10 xícaras de água fria para cozinhar o arroz com a panela fechada.
Quando estiver quase secando a água, desligar a panela e deixar terminar o cozimento com a tampa fechada.
Na hora de servir, adicionar as uvas passas, misturando bem.

STOLLEN

INGREDIENTES
400g farinha
10g fermento biológico
60g de açúcar
90g de manteiga
200 ml de leite
10 ml de schnaps ou run
pitadas de sal
raspas de limão
200g de frutas cristalizadas e picadas
100g de nozes picadas

MODO DE FAZER
Misturar farinha açúcar e fermento, aquecer o leite e a manteiga e acrescentar. Depois o sal, limão e schnaps. Trabalhar com a massa por 15 minutos até formar uma bolinha. Abrir na mesa, espalhar frutas e nozes e amassar novamente. Deixar descansar por 20 minutos. Abrir novamente e dobrar no formato típico. Colocar na assadeira e deixar descansar mais uma hora. Assar rm 150º/160º por aproximandamente 60 minutos. Para finalizar, coloque um pouco de manteiga por cima e bastante açúcar de confeiteiro.

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