Publicidade
Quinta-Feira, 20 de Setembro de 2018
Descrição do tempo
  • 23º C
  • 18º C

Dois lados da greve: motoristas e caminhoneiros lidam com impactos na Grande Florianópolis

Enquanto alguns motoristas passaram a noite na fila de um posto, em Capoeiras, caminhoneiros continuaram o protesto na BR-101, em Palhoça

Redação ND
Florianópolis
28/05/2018 às 20H25

O domingo (27) amanheceu com trânsito tranquilo na região central de Florianópolis. A greve dos caminhoneiros completou uma semana, causando reflexos em diversos setores do comércio - de postos de gasolina a supermercados. Enquanto alguns motoristas mantém a esperança de encontrar combustíveis nos postos, que estão fechados ou com o asastecimento suspenso, centenas de caminhoneiros se reúnem na marginal da BR-101, em Palhoça, um dos 138 pontos de manifestação nas rodovias catarinenses. 

Posto em Capoeiras - ND
Posto em Capoeiras - ND


Em um posto localizado no bairro Capoeiras, na região continental de Florianópolis, uma fila reunia dezenas de carros e motos na manhã deste domingo. Às 9h, ela começava na rua Prefeito Dib Cherem e chegava à avenida Governador Ivo Silveira. Mesmo com o movimento, não havia confirmação se o estabelecimento iria abrir ou se ainda possuía gasolina - motoristas relataram ter conseguido abastecer seus tanques nesse posto no sábado (26). 

O motorista Esequiel de Oliveira, 24, chegou às 3h30, e, às 9h, aguardava a sua abertura. Alguns de seus amigos passaram a noite na fila, enquanto outros desistiram após algumas horas. “Tem alguns colegas meus, que são motoristas do Uber, que estão tentando trabalhar e não conseguem, porque falta gasolina mesmo”, disse. Mesmo com a incerteza da abertura, houve registro de motoristas tentando furar a fila. Populares comentaram que o estabelecimento não abria aos domingos, enquanto outros informaram que a administração do posto decidiu suspender as atividades na noite de sábado, após um princípio de confusão entre motoristas.

Moradora do bairro Aririú, em Palhoça, Mayara Garcia dos Reis já enfrenta dificuldade para encontrar alguns alimentos, como carnes, no supermercado mais próximo de sua casa. “Tá bem difícil, eles estão dando limite de duas peças por pessoa”, disse. Ela foi uma das motoristas que chegou durante a madrugada, às 2h30, na fila de um posto de Capoeiras. O marido dela, que é motoboy, chegou a comprar álcool de cozinha para tentar abastecer a moto e utilizá-la no trabalho, o que não deu certo.

No início da tarde, por volta das 13h, o movimento continuava na região continental da Capital. O motoboy Michael Angelo Matioli Andrade encheu o tanque pela última vez na quarta-feira (16) e passou a madrugada na fila do posto. "Ontem [sábado], às 22h, acabou o combustível da minha moto e tive que avisar o pessoal que não tinha mais como fazer entregas, mal e mal dava pra chegar em casa", contou. "Vou ver se deixo o carro aqui mesmo, pego um ônibus para ir para casa e de noite retorno", explicou. A ideia é dormir no carro e abastecer na segunda-feira, para que seja possível trabalhar durante a semana.

Fila no posto de Capoeiras teve início na noite de sábado - Gustavo Bruning/ND
Fila no posto de Capoeiras teve início na noite de sábado - Gustavo Bruning/ND


Quem também madrugou na fila do posto foi Márcia Dalkiranis, 45. "A informação é que o posto iria abrir no domingo, às 8h, mas até agora nada", disse a empresária, às 10h. Com o tanque do carro na reserva, ele teme a falta de combustível em caso de uma emergência, pois a sua filha, Ingrid, tem uma gravidez de alto risco. "Eu tenho que levar ela para a maternidade todos os dias e não sei mais o que fazer. Nem Uber consigo chamar, porque eles também estão sem gasolina", contou. "Acho que o governo tem que tomar uma medida. Eu apoio a greve, mas do jeito que está não dá para ficar", desabafou.

Confira a situação ao vivo em um posto de Capoeiras, onde dezenas de motoristas passaram a madrugada esperando a abertura do estabelecimento.

O motociclista Rafael Paz de Ávilla, 25, mora no bairro Ratones, no Norte da Ilha, e foi até o continente com a expectativa de abastecer a sua Honda CB-300, que está na reserva. Às 13h, ele continuava à espera. "Tivemos o transtorno de chegar aqui e encontrar toda essa fila, pra chegar a informação de que os carros e as motos não vão ser abastecidos. Daí fica complicado. Como é que a gente vai voltar para casa?". Ele conta que teve a ajuda de alguns amigos para abastecer a moto no sábado, utilizando mangueiras. "Acho que vou ter que ficar aqui para ter uma resposta mais esclarecida", afirmou.

Manifestação em Palhoça

Segundo o balanço mais recente divulgado pela PRF (Polícia Rodoviária Federal), na noite deste sábado (26), havia 67 pontos da manifestação de caminhoneiros nas rodovias federais que passam por Santa Catarina. Somado com a quantidade de pontos nas rodovias estaduais, o número chega a 138. Um dos protestos dos caminhoneiros está sendo realizado desde quarta-feira (23) em Palhoça, no km 216 da BR-101. 

 -
Manifestação de caminhoneiros em Palhoça, na BR-101, na manhã deste domingo - Gustavo Bruning/ND


"Não estamos impedindo caminhões de lixo, de oxigênio hospitalar, medicamentos, cargas vivas e insumos", afirmou Célio Vaeling, 36, um dos caminhoneiros presentes na manhã de domingo. Segundo ele, já passaram pelo espaço caminhões vindos da região Serrana de Santa Catarina, Lages e São Paulo. No trecho, uma faixa vertical é erguida por um guindaste e destaca a hashtag #somostodoscaminhoneiros.

No início da tarde, os caminhoneiros receberam a reportagem da RICTV Record e explicaram como vem sendo a rotina no local. Apesar de certa hesitação quanto à presença da imprensa, o grupo se mostrou aberto ao diálogo e exibiu as doações da população, que incluem alimentos, cobertores e materiais de higiene. "A PRF esteve aqui nos primeiros dias para monitorar a situação, e colocou cones aqui na entrada", disse Célio.

"Aqui está centralizada toda a paralisação de Santa Catarina", informou Flávio Tubino, 65. "Daqui estamos ajudando muitos companheiros e entidades carentes que estão precisando, porque o povo traz tudo para cá", afirmou o caminhoneiro. A rotina pela manhã, explica xxx, envolve preparar o ambiente para os familiares. "Nós limpamos e organizamos o almoço para as famílias e para as crianças", contou. "Nós não estamos fazendo bagunça."

Manifestação de caminhoneiros em Palhoça, na BR-101, na manhã deste domino - Gustavo Bruning/ND
Caminhoneiros protestam no km 216 da BR-101 - Gustavo Bruning/ND


"A população está abraçando a causa", contou o caminhoneiro Anderson Ari da Rosa, 37, que está desde a tarde de quinta-feira (17) acompanhando a movimentação no protesto de Palhoça. "Durante a noite os próprios motoristas estão se revezando para cuidar da segurança dos caminhões que aqui estão. Durante  o dia é essa manifestação que está aqui, todo mundo se ajuda e se apoia", relatou. Para ele, o apoio de toda a população é importante pois os manifestantes também lutam por uma causa que não é exclusiva dos caminhoneiros: a retirada dos políticos corruptos. "Não estamos reivindicando uma coisa só para a nossa classe, e sim para toda a sociedade. O motorista está lutando pelo povo brasileiro, não por nenhum partido ou político", declarou Anderson.

Manifestantes que defendiam a intervenção militar também estiveram presentes no protesto. Judith Koerich da Silva, 58, acompanha a manifestação desde segunda-feira (21), em Itajaí, e se deslocou para Palhoça, onde expôs uma faixa reforçando a necessidade da intervenção. "Nós viemos fazer um trabalho de unir o povo, conscientizando o povo de que não temos solução política para o Brasil", afirmou. "Precisamos de uma intervenção militar para limpar o nosso país e começar do zero, porque as lideranças que temos hoje - o STF, os três poderes - estão contaminadas", garantiu Judith.

Caminhoneiros e seus familiares receberam doações da população - Gustavo Bruning/ND
Caminhoneiros e seus familiares receberam doações da população - Gustavo Bruning/ND



Publicidade

1 Comentário

Publicidade
Publicidade