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No Dia das Mães, mulheres reais compartilham o desafio de restabelecer a identidade após dar à luz

Topo - Especial Dia das Mães
Topo - Especial Dia das Mães "As marcas que carregamos" - Arte/ND

As marcas que carregamos

No Dia das Mães, mulheres reais compartilham a jornada para autoaceitação do corpo no pós-parto


REPORTAGEM: BEATRIZ CARRASCO
FOTOGRAFIA: DANIEL QUEIROZ


Em uma manhã durante o oitavo mês de gestação, Joice acordou, olhou para seu corpo e não quis acreditar: as temidas estrias haviam aparecido. Vermelhas, profundas e ocupando grande parte de sua barriga. Ela chorou, porque soube que carregaria aquelas marcas para o resto da vida. Assim como a professora de português e comunicadora Joice Taú, 31 anos, moradora de Florianópolis, grande parte das mulheres se depara com o desafio de conviver com um corpo irreconhecível após dar à luz. E neste Dia das Mães, o convite é olhar para essas mulheres, que representam a maternidade real, sem filtros ou idealização.

Com a ascensão das redes sociais e a possibilidade de encontrar na internet espaços para compartilhar experiências, muitas mães têm deixado de esconder seus novos corpos e aflições com a mudança de realidade. Funcionam como redes de apoio no processo de autoaceitação das marcas – físicas e psicológicas – de trazer um ser humano ao mundo. O intuito é romper tabus para encarar cicatrizes, estrias, flacidez e assimetrias como parte de um processo de transformação, e não como imagens 'probidas', esteticamente inaceitáveis, que devem permanecer ocultas do mundo.

A @takebackpostpartum é conta no Instagram em que mulheres compartilham fotos do pós-parto - @takebackpostpartum/Reprodução
@takebackpostpartum/Reprodução


Uma dessas ferramentas é a @takebackpostpartum, conta no Instagram em que mulheres compartilham fotos do pós-parto com depoimentos sobre a maneira como resolveram lidar com as alterações em seus corpos. Ler os relatos nessa rede social ajudou Marcela Castanha Soares, 23 anos, também moradora da capital catarinense, a encarar suas curvas como a representação do momento em que trouxe à vida seu grande amor: Manuella, hoje com 8 meses de idade.

“Conheci esse Instagram por uma amiga que me ajudou bastante no pós-parto. Achei incrível, são depoimentos emocionantes que fizeram eu me sentir melhor e aprender a me aceitar nessa mudança”, contou a vendedora.

No Brasil, outros canais na internet buscam desmistificar o universo materno, com abordagens sobre os reais desafios de exercer o papel de mulher-mãe. Do cansaço extremo e privações ao amor incondicional por um ser gerado no próprio ventre. Entre essas páginas estão o blog Meu Nome Não é Mãe e o Youtube Hel Mother.

“Hoje minha filha tem 6 anos e eu também. Não há nada da antiga Joice que restou em mim. E pensar sobre isso me faz ver como esse processo é grandioso”, avaliou a professora de português. Confira abaixo os depoimentos de três moradoras de Florianópolis sobre seus processos de descoberta e autoaceitação na nova vida como mãe.

Joice Taú, 31 anos, professora de português e comunicadora

Joice Taú, 31 anos, professora de português e comunicadora - Daniel Queiroz/ND
- Daniel Queiroz/ND


“A primeira vez que me dei conta que meu corpo não seria mais o mesmo foi no oitavo mês de gestação. Nesse dia fatídico acordei com um monte de listras vermelhas na barriga. Eu não queria acreditar. Eram as temidas estrias. Eu chorei muito, talvez mais do que quando descobri que estava grávida. Eu chorei desesperadamente. Meu parceiro se assustou e foi correndo apavorado para o quarto. Quando eu contei porque chorava, ele riu: ‘ah guria, que susto, isso não é nada, calma’. Mas aquilo pra mim estava longe de não ser nada. Eu era mulher, e estava sendo ‘deformada’ para sempre. A primeira vez que olhei pro meu corpo quando saí da maternidade, fiquei uns bons minutos em frente ao espelho me apalpando. Eu só pensava: será que vai voltar ao normal? Quando essas marcas vão desaparecer? As mulheres mais velhas da família me passavam receitas para as marcas desaparecerem. Usar cinta, cremes, beber bastante água. Eu lembro até hoje quando ouvi da minha mãe na praia: seu corpo já está voltando, agora você só precisa fazer alguma coisa pra essas estrias na barriga. Ela estava tentando ser gentil, eu acho, me animar. Mas pra mim foi uma violência sem tamanho. Com o tempo, me veio a constatação: a não ser que eu fizesse cirurgias estéticas, as marcas não iriam desaparecer. E como eu sou uma pessoa que detesta a ideia de hospital, cirurgia, cortes, etc., comecei a perceber que teria que aprender a viver com esse novo corpo.

Iniciou-se este outro processo: a aceitação. Eu teria que encontrar forças para amar, além de um bebê e uma vida cheia de privações, um corpo mutilado de mulher. Amar o meu peito caído, murcho e com estrias, e a minha ‘pochete’ flácida e também cheia de estrias não aconteceu da noite pro dia. No meio disso, enfrentava uma separação na qual o meu parceiro já havia dito diversas vezes que ‘não conseguia mais ter tesão em mim’. Sinceramente, hoje, olhando pra trás, eu não sei da onde tirei forças para viver tudo isso de uma vez. Eu, que cresci acostumada a ser ‘a garota mais bonita colégio’, de repente me via nessa nova realidade: mãe, solteira, flácida, com um bebê que acabara de fazer 1 ano, e uma vida sexual e afetiva vazias. Vazia porque os poucos caras que ‘arriscavam’ ficar comigo, iam embora logo após a primeira transa. Me achavam doida demais, perigosa demais, mãe demais. Meu emocional ficou afetado por um bom tempo. Com a ajuda de algumas amigas e muita terapia, fui conseguindo, aos poucos, me restabelecer. Comecei a me sentir mais viva (e, consequentemente, mais atraente) quando a Alice tinha uns 3 anos. Os dois primeiros anos de maternidade foram difíceis! Mas sei que depois que saí dessa tempestade de sensações e sentimentos, renasci. Hoje minha filha tem 6 anos e eu também. Não há nada da antiga Joice que restou em mim. E pensar sobre isso me faz ver como esse processo é grandioso. É doloroso sim, porque assim o é quando o passarinho sai da casca. Mas é libertador, divino e maravilhoso!

Joice Taú, 31 anos, professora de português e comunicadora - Daniel Queiroz/ND
- Daniel Queiroz/ND


Então, você mãe que acabou ter um bebê, não se desespere. Vai ser uma fase complicada, conturbada, que você vai pensar muito em cirurgia, tratamento estético, academia e em diversas obrigações que você, mulher, deve ter com o seu corpo. Mas tente relaxar e aproveitar ao máximo esse momento com o seu bebê. Fortaleça seus laços de amor e carinho ao invés das suas coxas. Escolha atividades físicas que te tragam benefícios além da estética – eu escolhi o yoga. Essa sensação de perda da identidade e autoestima parece que nunca vai passar, mas vai. Com o tempo você vai perceber que não tem obrigação com nada além de cuidar, proteger e amar sua cria. Uma hora as marcas diminuem, ou simplesmente deixam de fazer diferença pra você. Como tudo nessa vida, a gente se acostuma e se adapta. E você só ganha com isso. Saí mais forte, corajosa e autossuficiente dessa luta. Amar e aceitar suas marcas maternas te fazem um mulherão da porra!

Sigo até hoje vivendo e aprendendo a conviver com minhas marcas. Ainda com vergonha do meu peito murcho e caído quando vou transar. Ainda encarando minha barriga por longos minutos em frente ao espelho. Mas com a certeza de que essas marcas são da mulher que nasceu há 6 anos. Essa mulher que eu amo e admiro, que minha filha e minhas amigas amam e admiram, e que até minha mãe aprendeu a achar bonita mesmo assim. Hoje ela diz que ‘admira minha coragem’.

Não sei o que posso dizer aqui para ajudar outras mães a passarem mais calmamente por essa fase. Talvez não exista uma fórmula. O processo de cada uma é único. Talvez a insegurança nunca passe totalmente. Mas vou arriscar dizer algumas palavras: não tenha medo de como seu corpo vai ficar depois da gestação! Um dia você vai amar todas as suas ‘imperfeições’. Elas serão símbolos da sua força, sua luta e sua história. Você vai se amar em qualquer forma, porque o Ser Mãe é lindo em todos os aspectos. Aos poucos, vai lhe cair a ficha de que não há nada para corrigir, para consertar, apenas para admirar. Admirar a beleza de ser esse Ser, que trouxe e transmite luz. Que alimenta e ensina o amor, e aprende todo dia a amar mais. Aos poucos, você vai gostar de cada dobrinha, cada cicatriz, cada estria, cada coisinha que ficou ‘fora do lugar’. Suas marcas serão a prova de que sua existência se transformou em algo maior, e de que todo o sofrimento valeu a pena. Suas marcas serão sua bandeira, sua medalha, sua vitória e sua beleza, traduzida numa imperfeição de significado tão belo, que não poderia ser mais perfeita. Afinal, a satisfação de ter um corpo bonito jamais se igualará à satisfação de ser uma mulher bonita. E uma mulher bonita é uma mulher feliz. A beleza está nas páginas do livro da vida que você escreveu. A beleza consiste em coisas mais atraentes do que a estética.

Minha fórmula da beleza foi deixar o amor reger a vida. O amor próprio, o amor pela minha filha e o amor por todas as outras manas que estão comigo. Hoje eu penso que não há nada mais belo do que ser mãe e poder compartilhar isso com os outros. E que bom que eu escolhi não esconder as marcas da minha maternidade para o mundo. O mundo precisa de mais gente bonita, essencialmente bonita.”

Joice Taú, 31 anos, professora de português e comunicadora - Daniel Queiroz/ND
- Daniel Queiroz/ND

 

Marcela Castanha Soares, 23 anos, vendedora

Marcela Castanha Soares, 23 anos, vendedora - Daniel Queiroz/ND
- Daniel Queiroz/ND


“Comecei a sentir as mudanças que eu levaria para a vida quando, nas consultas mensais do pré-natal, eu ouvia da minha médica que estava engordando demais. Por mês eram 3kg, e a única coisa que eu não conseguia mudar era isso, o que me deprimia cada vez mais. No sétimo mês de gestação, começaram os inchaços em excesso, eu não gostava de me olhar no espelho. Meu marido me olhava e dizia que eu estava linda grávida, e eu tentava encontrar a ‘linda’ naquela mulher que refletia no espelho. Não tive a luta das estrias, mas o excesso de peso e a celulite ficaram.

Na primeira vez que me olhei no espelho no pós-parto foi emocionante, ainda no hospital. Eu estava em choque com o trabalho de parto, que começou às 6h de uma segunda-feira e durou até quinta-feira. Eu tive muito medo naqueles momentos, então, me olhar no espelho depois foi um alívio. Eu me olhei por inteira e fiquei amando minhas imperfeições. Eu estava tão realizada com o nascimento da minha filha que eu me amava e agradecia por ter passado por aquele tão sonhado momento.

Não conseguia dar importância para as gorduras e as celulites, e nem para as pessoas que comentavam que, agora, eu teria que lutar para perder esses quilos. Como mãe, eu só pensava em dar amor e dar conta de cuidar daquele pedacinho de gente que dependia totalmente de mim. Hoje, a Manuella tem 8 meses e eu estou trabalhando, e o que menos quero é ter que deixar ela para tentar alcançar o padrão do ‘corpo perfeito’. Faço o que consigo e quando quero, aproveitando cada segundo que posso estar com ela.

Não tem sido fácil, ainda estou no processo de aceitação dos quilos a mais, já que engordei 20kg na gestação e ainda não voltei ao meu peso normal. Mas procuro não pensar nisso, mesmo tendo muita cobrança das pessoas que convivo. Sinto que tudo tem seu tempo e, aos poucos, vou conseguir.

Tudo tem seu tempo e, neste momento, os quilos, celulites e peito murcho vão continuar fazendo parte desse amor infinito que tenho pela maternidade e por ser mãe. Eu desejo que todas as novas mães se orgulhem de ser guerreiras e saibam aceitar o que cada momento da maternidade nos trás, sendo sempre único e passageiro.”

Marcela Castanha Soares, 23 anos, vendedora - Daniel Queiroz/ND
- Daniel Queiroz/ND

 

Janaína de Oliveira Ribeiro, 37, instrutora de yoga e de inglês, e tradutora

Janaína de Oliveira Ribeiro, 37, instrutora de yoga e de inglês, e tradutora - Daniel Queiroz/ND
- Daniel Queiroz/ND


“A minha primeira preocupação com relação ao corpo ao saber da minha primeira gestação não foi nada estética. Me assustava mais pensar em onde iriam parar as minhas costelas do que em possíveis celulites ou estrias. Era com certo pavor que eu olhava de cima para baixo nas primeiras semanas, ainda com um sentido de zelo exagerado com o meu corpo virgem - sem filhos. Porém, como tudo que envolve o elaborado processo de se transformar em mãe, esse era apenas um aspecto grosseiro que mascarava preocupações maiores e menos físicas. Aos poucos fui percebendo que tudo o que dizia respeito ao corpo acontecia de forma natural, perfeita e milagrosa. Me espantava a cada semana que o meu filho crescia e o corpo se adaptava perfeitamente, o que até hoje permanece um mistério para mim.

Desde cedo na gestação percebi que o corpo era um fator com o qual a natureza estaria encarregada, portanto não me preocupei realmente com o futuro estado dos meus seios ou costelas. O meu foco, desejos, medos e anseios tinham pouco a ver com o tamanho do quadril. Apesar disso, encontrar-me em frente ao espelho era sempre uma novidade, e nem sempre a que mais me agradava. As impressões foram de me achar muito feia, até me achar extremamente sexy, de volta para esquisita, depois maravilhosa e exuberante, feia novamente. Mas, por fim, me convenci que estar grávida representava a própria plenitude de ser feminina, que a minha aparência redonda era iluminada e representava uma lua cheia. E isso, pela força da natureza, é pura beleza. Assim, tinha medo de que perderia toda a graça uma vez que não me encontrasse mais naquele estado.

Assim, o que aconteceria com o corpo após o nascimento era um mistério como toda a gestação. Tinha um pouco de medo emprestado de outras mulheres que afirmavam não ter filhos porque temiam perder seu lindo corpinho, e um pouco de esperança de que a natureza fosse mais uma vez generosa e compassiva. Pensava que assim como os espaços haviam surgido misteriosamente, eles haveriam de desaparecer, e as marcas seriam a história escrita em minha pele.

Janaína de Oliveira Ribeiro, 37, instrutora de yoga e de inglês, e tradutora - Daniel Queiroz/ND
- Daniel Queiroz/ND


Logo após o parto, estava tão irreconhecível que achei melhor nem pensar sobre o assunto. Eram seios gigantes e aquela barriga vazia estranha. É bem verdade que pensei que haveria de me adaptar com aquela forma para sempre, mas, como a natureza é sábia, aquilo se tratava apenas de mais uma etapa. Passaram-se alguns meses até eu me preocupar e sequer pensar que voltaria a ter o mesmo corpo de antes. Aos poucos fui retomando o autocuidado e a prática física, com novas transformações! Lentamente fui perdendo aquele corpo de mãe.

Hoje, às vezes brigo com o espelho, às vezes sinto orgulho porque sei que a minha história está escrita em cada curva, em cada ruga, em cada estria. Sempre achei a questão da beleza relativa, questiono a perfeição quando dizemos ‘corpo perfeito’. Não vou dizer que amo as minhas celulites, mas sempre que começo a brigar comigo mesma em busca de um ideal estético, lembro que a maior beleza é ser feliz, que me comparar com outras só me traz pensamentos negativos e me faz perder o brilho de ser quem eu sou. Acho que um corpo bonito é um corpo amado, um corpo cuidado e que reflete essas qualidades independentemente da forma. Ficar presa a um padrão de um corpo de ‘garota verão’ o ano inteiro durante a vida inteira, me afastaria da verdadeira felicidade e do desfrutar intensamente cada etapa da minha vida, além de negar a própria natureza cíclica feminina. Por isso, busco me cuidar das maneiras possíveis, muito mais por amor próprio do que para atender a expectativas externas.”