Publicidade
Quinta-Feira, 21 de Setembro de 2017
Descrição do tempo
  • 26º C
  • 20º C

Assuntos da Grande Florianópolis e os temas cotidianos das cidades da Região Metropolitana – incluindo resgates diferenciados da memória histórica –, são acompanhados de perto pelo colunista Carlos Damião, que tem mais de 30 anos de vivência profissional.

E por falar em arte erótica, vamos lembrar de Meyer Filho?

Fosse hoje, uma exposição das obras com os "caras de alho" do genial pintor catarinense certamente estaria ameaçada pelos grupelhos fascistóides

Carlos Damião
12/09/2017 19h22

O Brasil vive um momento muito complicado do ponto de vista institucional e comportamental. Um momento surrealista, inacreditável, absurdo. O ataque de um grupo fundamentalista de extrema-direita a uma exposição de arte em Porto Alegre ganhou repercussão internacional. Até o vetusto The Washington Post (EUA) divulgou a notícia de que a mostra foi encerrada pelo Banco Santander diante das pressões feitas pela facção extremista. Embora muito sério, o assunto virou piada nas redes sociais, por causa da ação inusitada e despropositada desse bando de lunáticos burros, que agem como os fascistas agiam na Itália e Espanha e os nazistas na Alemanha.

Desde os primórdios da civilização o erotismo é uma forma de expressão artística aceita, apreciada e difundida. Há quem não goste. Mas não gostar jamais deve significar proibir ou banir. Até porque, templos e museus católicos estão abarrotados de pinturas, afrescos, gravuras, esculturas e outros elementos artísticos que utilizam figuras humanas despidas ou em situações amorosas. Em outros museus existem obras de forte apelo erótico, com cenas bizarras, incomuns, divertidas ou dramáticas. Nem a Igreja, nem governos democráticos, se atrevem a censurar esses trabalhos, porque eles “ilustram” partes da história humana no Planeta.

Mas no Brasil da pós-verdade, da negação da história, da política, da educação e da arte, isso vem se tornando possível. Terrivelmente possível, como prova a desistência do Santander em promover a exposição instalada em Porto Alegre. O banco cedeu à pressão do grupelho de malucos sem atentar para os graves prejuízos à sua imagem institucional, tanto no Brasil, quanto no exterior. Acionistas e dirigentes do Santander, de origem hispânica, têm notórias ligações com a organização católica ultradireitista Opus Dei.

 Desenho que Meyer fez enquanto eu o entrevistava, em sua casa, na Rua Altamiro Guimarães - Reprodução
Desenho que Meyer fez enquanto eu o entrevistava, em sua casa, na Rua Altamiro Guimarães - Reprodução


Refletindo sobre o caso, fui à biblioteca caseira e localizei um exemplar do livro “Meyer Filho – Vida & Arte”, que escrevi e editei, para a Fundação Catarinense de Cultura, em 1996. Na obra, desenvolvida a partir de depoimentos, reminiscências e obras do grande artista visual catarinense, há um capítulo especial dedicado ao erotismo. Meyer valorizou o pênis (que ele chamava de “cara de alho”), em diversas composições artísticas fantásticas.

A seguir, o capítulo do livro em que Meyer explica por que gostava de arte erótica:

As sacanagens fantásticas

O erotismo na arte de Meyer surge no final dos anos 70 e início dos 80. Ele próprio se questionava sobre o estilo, à época, rindo muito, porque, afinal, já tinha completado seus 60 anos. “Parece coisa de guri”, disse numa entrevista. Mas encarou o projeto com seriedade. Em 29 de outubro de 1981 o artista abriria, finalmente, no Studio de Artes, a exposição “Pinturas e Desenhos Eróticos”.

Segundo ele, fazia seus desenhos desde 1941, “mas rasgava todos sob protestos dos meus amigos e satisfação dos falsos moralistas. Foi somente a partir de 1979 que resolvi dar mais espaço para os meus desenhos eróticos. Neste ano da graça de 1981 iniciei a primeira série desses trabalhos”.

Em 1963, conforme depoimento concedido em 1981 (JSC, 7 de junho), Meyer fez sua primeira exposição individual em São Paulo e, cercado de críticos e jornalistas, fez uns “desenhos de sacanagem e eles adoraram. De repente, rasguei os desenhos e eles disseram, apavorados: ‘Meu Deus, Meyer, que burrice! Se tu quiseres fazer desenhos eróticos, nós temos até uma editora que publica. Nós vamos ganhar dinheiro nas tuas costas”. O artista catarinense não levou a sério a afirmação dos visitantes de sua exposição. E deixou o assunto erotismo adormecer até os anos 70.

No depoimento, para explicar o porquê de sua opção pela arte erótica, fez a seguinte comparação: “Sabe qual é a diferença entre um artista mixuruca, picareta e comercial – que desenha e pinta as coisas para agradar os tolos – e um grande pintor, como Meyer Filho (desculpe a falsa modéstia)? Quando um pintor mixuruca pinta uma flor, uma moça bonita ou uma bela paisagem, ele faz coisas horrorosas, que ofendem profundamente as pessoas inteligentes e que têm sensibilidade. Um grande pintor – como eu, naturalmente (estou aqui fazendo a minha propaganda) – pode desenhar o pai físico da humanidade (o ‘cara de alho’, né?) de qualquer maneira, de qualquer tamanho, de qualquer cor, que ele o transforma numa obra de arte.  Esta, a diferença”.

Para explicar a preferência em executar trabalhos eróticos com o órgão sexual masculino em evidência, Meyer disse apenas uma frase: “Porque eu sou homem, né? E tenho que enaltecer o...”

Em entrevista publicada no Jornal de Santa Catarina, em 14 e 15 de setembro de 1980, Meyer Filho dizia que o seu erotismo deveria ser chamado, simplificadamente, de “sacanagens fantásticas”. Pelo conteúdo, pela forma, pela transferência cósmica de seus apelos.

“Idílio Cósmico”, obra de 1981, integrou exposição do artista no mesmo ano, em plena ditadura civil-militar - Reprodução
“Idílio Cósmico”, obra de 1981, integrou exposição do artista no mesmo ano, em plena ditadura civil-militar - Reprodução

 

Publicidade

7 Comentários

Publicidade
Publicidade